Paulo Hijo


Biografia:

É escritor, cronista, formado em filosofia pela USP. Na infância se comunicava em três idiomas: português, japonês e o dialeto okinawano, por ser filho de imigrantes okinawanos. Sua vocação é a Filosofia, pelo interesse permanente no estudo dos mistérios da fé e das letras. Além do tempo dedicado às aulas, o autor vem desenvolvendo projetos de livros paradidáticos na área da Filosofia.


Obras:

Enquanto a chuva não passa
Cartas de um nihonjin uchinanchu do Brasil


Textos de Paulo Moriassu Hijo:




Imigrantes japoneses e a II Guerra Mundial

Nisseis (primeira geração de descendentes de japoneses), que nasceram nas décadas de 40 e 50 do século passado, sabem bem quanto sofremos a consequência da Segunda Guerra Mundial. Éramos vistos como inimigos por Japão fazer parte do Eixo, junto com a Alemanha e a Itália.

Muitos isseis (pessoas nascidas no Japão) tiveram as suas próprias casas transformadas em prisão, onde tiveram que ficar confinados. Muitos não tiveram a mesma sorte. Estes foram aprisionados e enviados ao campo de concentração de Tomé-Açu, Pará.

Durante a Grande Guerra, os brasileiros passaram a ver os japoneses e seus descendentes como traidores e fingidos. Por Japão ter atacado Pearl Harbor, supostamente sem aviso, éramos visto com desconfiança. Também éramos alvos de chacotas e motivos de piadas. Cresci ouvindo dizerem que não enxergávamos bem e que dirigíamos muito mal.

Acontece que os japoneses e seus descendentes começaram a se mostrar bons estudantes. Muito chegaram às melhores universidades e tornaram-se bons profissionais. Aos poucos, os brasileiros passaram a nos ver com outros olhos. Não sofro mais nenhuma forma de preconceito. Até ouço elogio da nossa culinária, coisa que achavam esquisito um tempo atrás.

E hoje, como descendente de japoneses, sinto orgulhos dos japoneses de Tomé-Açu, Pará, pois estão entre os maiores e melhores produtores de pimenta-do-reino das Américas. Hoje, esses japoneses, que vivem tão distantes da região Sudeste, levam uma vida digna.


Só tem uma coisa

Pode parecer presunção ou convencimento, apesar de ter uma coisa, namorei as mais lindas garotas na minha juventude. Todas as meninas que julguei serem bonitas, eu as possui. Algumas por pouco tempo, outras por um tempo mais longo. Ah, como fui namorador das princesas e rainhas do meu lugar.

Não, não fui nenhum galã ou Don Juan do meu bairro ou da minha escola. Nem mesmo fui bem aparentado e charmoso quando jovem. Onde eu chegasse, nem mesmo era notado. Mesmo assim, namorei as garotas que eu desejei. Cada uma que passou pela minha vida deixou marcas profundas, todas positivas, tanto é que não me esqueci de nenhuma delas.

A minha primeira namorada, aos 15 anos, chamava-se Maria Luiza e tinha 14 anos. Era ruiva, tinha sardas, olhos verdes e mais alta do que eu. Apesar de pouca idade, já possuía um belo par de seios e as pernas bem torneadas. Seu corpo era de uma moça formada. Fui seu namorado por um bom tempo. Seu rosto era lindo.

Depois da Maria Luiza, namorei uma loira da minha rua. Era bem mais velha do que eu. Se me lembro bem, tinha mais ou menos 22 anos. Eu ainda estava com 15. Mulher formada e sempre de vestido e saia. Tinha pernas e coxas grossas. A cintura era fina e quadril largo. Como era encantadora a Sofia. Nela tudo era bonito.

Logo depois da Sofia, namorei a Julia, também loira e de olhos azuis, de 16 anos. Tinha uma pele alva e os cabelos eram bem claros. Magra e de pernas longas. Vestia-se bem. Gostava quando ela usava uma minissaia e botas de cano alto, que a deixavam com as pernas mais alongadas. Com um rosto comprido e olhos azuis, Sofia encantava os meus olhos.

Uma das que me marcaram bastante foi a Maria, que contava com 17 anos. Estudava na mesma escola e no mesmo período que eu. Foi a mais bela de todas. Era branquinha e de cabelos bem pretos. Os olhos negros e de um olhar hipnotizador. Era do tipo mignon e de um andar diferente, que lhe dava um charme todo especial. Era muito séria. Nunca a vi gargalhando. Apenas sorria sutilmente. Gostava da sua discrição. Sua face foi a mais bela que eu já conheci.

Outra figura marcante na minha vida foi a Sonia. Mais uma loira de olhos verdes que eu namorei. Tinha 16 anos e era de média estatura e falsa magra. Lembro-me bem das suas belas pernas, nem grossas e nem finas, mas eram bem torneadas. Seus cabelos lisos eram longos que chegavam à sua cintura.

Namorei também a Valquiria, quando ela tinha 16 anos, apesar de tê-la conhecido quando tinha 12. É que nessa idade, era tão feia que se assemelhava a um filhote de cruz-credo, apesar dos olhos verdes. Era magra feito uma vassoura e desengonçada. Para piorar usava um par de óculos horrível. Mas aquela menina foi crescendo e tomando uma que eu foi a Neusa. Tinha 23 anos e era filha de um industrial. Quando fez 18 anos, seu pai lhe deu um carro. Era uma gordinha de boa proporção. Tinha uma estrutura avançada, seios fartos, pernas, coxas e quadril de bom tamanho, mas a cintura fina me atraia. Nos fins de semana, ela me pegava em casa com o seu carro. Seu rosto era redondo e trazia lábios bem carnudos.

Namorei a Leila, uma mulata alta e muito charmosa. Tinha aquele quadril que só as afrodescendentes têm. Tinha um sorriso maravilhoso, que sempre mostrava seus alvos dentes. Olhos negros, cabelos black power e de uma alegria contagiante. Nos víamos pouco, pois por ter apenas 13 anos, seus pais a trancavam em casa. Mas, quando a via, eu suspirava de felicidade. Como era bom estar junto a ela.

Quando mudei para uma escola tradicional, namorei a Clara, de 16 anos. Morena e de um olhar encantador. Alta e de um corpo maravilhoso. Seios grandes, fina cintura e quadril avantajado, pernas longas e grossas. Com todos esses requisitos maravilhosos, ela chamava atenção de todos os meninos e rapazes. Seu rosto era marcante. Um motorista particular a levava e buscava na escola.

Namorei a rainha da escola e da cidade. Seu nome era Célia e contava com 17 anos. Não era alta e nem baixa. Cabelos castanhos e olhos na mesma tonalidade. Tinha um rosto longo e um nariz arrebitado. Mas o que mais me chamava atenção, eram suas pestanas longas. Ah, gostava muito quando ela sorria. Como era gostoso o seu sorriso. Quando ela fazia aula de educação física, os garotos rodeavam a quadra de esporte.

A Eliana, uma moça branquinha e cabelos pretos, namorei quando ela tinha 22 anos. Alta e de pernas longas. Seu rosto era angelical e provocador ao mesmo tempo. Tinha um olhar e um sorriso que me provocavam bastante, mas o que me despertava a minha atenção era o seu quadril grande e bem levantado. Eu a desejava mais do que a amava.

Não me esqueço da Sarah, uma judia danada de boa. Um corpo que qualquer ser do sexo masculino não desprezaria. Tinha 26 anos e era mãe de um menino, mas estava separada. Cabelos pretos até a cintura, pele branca e um rosto bem bonito. Alta, cintura fina e quadril largo, me provocava muito. Tínhamos encontros carnais, daqueles selvagens. Era uma loucura quando a tinha comigo.

Carolina, uma morena alta e de um corpaço, apesar de ter apenas 14 anos, devia medir mais de 1,70 m, era uma garota notável. Sua inteligência e uma beleza só dela me fizeram cair de amor por ela. Tinha cabelos pretos até os ombros. O seu rosto era grande e longo, mas ela era muito meiga e de fino trato. Falava quase cochichando e era de mais ouvir do que falar. Como era bom passar um tempo com ela bem próximo a mim.

Érika tinha 15 para 16 anos, loira de olhos verdes como a água do mar. Tinha rosto e corpo de modelo e manequim. Não foi dado aos estudos. Sua inteligência era parca. Não ficamos muito tempo juntos, pois logo me trocou por um homem bem mais e velho e se casou com ele. Nem mesmo completou 17 anos, tornou-se mãe. Aos 20, de longe lembrava aquela jovem bonita.

As coisas não ficaram só por aqui. Namorei e namoro muitas garotas, uma mais bonita do que a outra, como a minha professora de português da quarta série do antigo ginásio. Mas só tem uma coisa: nenhuma nunca, nem de longe, imaginou que eu a namorei.


A origem do povo de Okinawa - lenda

Não é raro pessoas com mais de noventa anos em Okinawa, arquipélago ao extremo sul do Japão. Quando atingem a idade de 97 anos, a data é comemorada com uma grande festa chamada "kajimayá", que significa cata-vento de brinquedo. Há regiões que saúdam seus aniversariantes com grandes festas populares.

O idoso de 97 anos é colocado na carroceria de um caminhão, portando um cata-vento, para que ele reviva seu tempo de criança. O caminhão, tipicamente enfeitado, percorre toda a região, e às vezes, acompanhado de uma fanfarra de uma escola local.

Depois, no centro comunitário, realiza-se uma grande festa com a participação de toda comunidade. Essa comemoração se deve a uma antiga lenda chamada também de "kajimaya".


Kajimaya

Segundo a lenda, muito tempo trás, um dia, de uma árvore muito alta, tão alta que tocava o céu, o deus do céu desceu à terra. Quando tocou o solo, viu que era de uma argila macia e boa para fazer muitas coisas. Tocando a maciez da argila, ele disse eufórico:

- Ó, essa argila é de ótima qualidade. Agora poderei fazer os humanos que sempre desejei fazer.

Deus do céu, então, fez seis figuras humanas de argila, três homens e três mulheres. Quando terminou, percebeu que já era noitinha, decidiu:

- Já está muito escuro para dar vida aos humanos. Voltarei amanhã para dar a eles a vida quando o sol se levantar e antes que a maré alta chegue sem avisar.

Na manhã seguinte, deus do céu voltou à terra e encontrou as seis figuras destruídas. Ao ver as obras em pedaços, lastimou:

- Ó, não! Quem será que foi capaz de fazer tal maldade? Terei que fazer tudo novamente.
Outras seis figuras foram esculpidas pelo deus do céu. Mas era noite quando terminou. Então, decidiu voltar para casa. Voltaria na manhã seguinte para dar vida aos humanos.

Quando voltou para terminar a sua obra, deus do céu encontrou as figuras em pedaços novamente. Muito bravo, decidiu fazer outras seis figuras e, durante toda noite, ficou de vigília para descobrir o autor da terrível destruição.

Por volta da meia noite, uma luz brilhante emergiu da profundeza da terra. Depois, o chão se separou e da fresta surgiu o deus da terra. Ele pegou as figuras e começou a quebrá-las. Deus do céu, ao ver a cena, gritou:

- Não! Pare! Espere! O que você vai fazer com as minhas obras?

Deus da terra olhou fixamente para deus do céu e disse:

- Foi você então que fez estas figuras de argila sem a minha permissão?

E deus do céu hesitou no princípio, mas argumentou:

- Me perdoa. Foi uma falha minha não ter, primeiramente, pedido a sua permissão. Foi ideia minha fazer essas figuras humanas e depois dar vida a elas. Estou muito envergonhado por não ter lhe comunicado. Mas, agora, aproveitando a oportunidade, gostaria de obter a sua permissão para poder usar essa maravilhosa argila para terminar meu trabalho. Meu desejo é dar-lhes a vida humana e deixá-las viver por 100 anos.

Deus da terra, percebendo que deus do céu estava arrependido e se mostrava humilde e sincero, concedeu-lhe a permissão. Ele criou seis figuras novas e na manhã seguinte lhes deu a vida humana. Os seis humanos foram colocados aos pares para formarem três casais. A partir de então que se deu a vida humana na terra.

Os humanos viviam felizes e se multiplicavam. Deus do céu estava muito contente com o número de humanos vivendo na terra e crescendo sempre. Então quando se passaram 97 anos, podiam-se ver vários tipos de humanos: homens e mulheres, crianças, jovens e idosos. Foi quando deus da terra resolveu fazer uma visita a deus do céu. Quando foi recebido pelo deus do céu, ele disse:

- Chegou a hora de você me devolver a argila que me pertence.

- Mas os 100 anos não se passaram ainda. - Deus do céu reclamou.

- Ah, mas nesse tempo houve um salto de três anos que fez o calendário adiantar para 100 anos hoje. Tenho o dever de comunicar ao Deus Todo Poderoso sobre o nosso trato, e você deve me devolver a argila.

- Compreendo a sua obrigação, mas gostaria que observasse os humanos. Veja, que entre os anciãos e adultos, há crianças e recém-nascidos. Você há de concordar comigo que mesmo os mais idosos ainda não atingiram 100 anos de idade.

Os dois deuses discutiram por horas, até chegarem a um acordo: àquelas pessoas, que, então, tinham atingido os 97 anos, seriam dado um tempo a mais de vida. E por isso deveriam comemorar e celebrar como se fossem bebês recém-nascidos aos 97 anos. De comum acordo, ambos os deuses julgaram que não haveria nenhum empecilho, quanto ao trato, que impedisse a aprovação do Deus Todo Poderoso. Sentiram que o acordo amigável faria com que Deus Todo Poderoso aceitasse a "nova" vida humana.

Foi assim, então, que "kajimaya" começou. Aqueles que chegam aos 97 anos de idade são as provas do acordo entre deus do céu e deus da terra, do qual surgiu a vida humana, aprovada pelo Deus Todo Poderoso.




Também estudei, mas...



Venham cá, meus filhos! Enquanto preparo o almoço especial deste domingo, vou contar como os tios de vocês ficaram ricos.

Tio Renato estudou educação física. Hoje, ele tem uma rede de academias de ginástica, daquelas completas com piscina, vários aparelhos e com aulas de artes marciais. Ele até iate tem.

Tio João fez economia e trabalhou muito tempo na bolsa de valores. Soube muito bem aplicar seu dinheiro. Hoje vive de renda. E que renda!

Tio Alberto fez faculdade de direito. Tem um dos mais respeitados escritórios de advocacia da cidade. Pega apenas os casos mais complicados, Nunca perdeu um processo sequer. Por isso, vive naquela mansão.

Tio Roberto é médico. Seus clientes são os grandes políticos e celebridades. Cobra uma fortuna por uma consulta. Não para de aumentar gente querendo se consultar com ele. Vem gente do país inteiro, para consultar com ele.

Tio Alberto fez engenharia civil. Especializou-se em construção de grande porte, como shopping centers, aeroportos e prédios enormes.

Tio Anselmo estudou gastronomia na França. Possui meia dúzia de restaurantes, dos mais luxuosos do país.

Tio Hamilton estudou para ser advogado. Mas tem uma grande imobiliária e administradora de prédios. Possui também uma construtora.

Tia Clara estudou para ser cabeleireira. Casou-se com um cabeleireiro. Os dois têm uma rede grande de salões de beleza.

Tio Luiz não estudou, mas jogou futebol como profissional na Europa por muitos anos. Fez um bom pé de meia. É, atualmente, agente de vários jogadores famosos.

Tio Mauro é dentista. Especializou-se em implante dentário. Tem várias clinicas e milhares de pessoas passam por ele e sua equipe todos os anos.

Tio Sílvio se deu bem na música. Gravou vários discos e é muito famoso . Faz shows no Brasil inteiro e no exterior.

Agora, vocês já sabem por que os seus tios levam uma vida muito confortável, viajam todos os anos para exterior, têm casas nas melhores praias, se dão ao luxo de frequentar os melhores restaurantes e vestem roupas caras.

Bem, vamos agradecer a Deus por mais uma refeição. Agora, comam os sanduíches de mortadela, sem me questionar por que fiz filosofia.

Bom apetite!




Boniteza interna

A Natureza não me proporcionou uma aparência física admirável. Com apenas 1,66 m de altura, sempre fui o mais baixo entre os meus amigos. Como me via destituído de uma beleza natural, passei uma boa parte da minha vida me sentindo o verdadeiro patinho feio. E por me sentir assim, não conseguia me aproximar das meninas bonitas. Já pensou se uma delas viesse a me ignorar pela minha aparência e se fizesse indiferente?

Pois é, por causa da minha baixa estatura e sem uma beleza externa, vivia uma vida insegura. Flertar - será que este verbo ainda é usado? - com meninas lindas sempre foi impossível. Nos bailes, dançava apenas com as conhecidas. Namorava só com aquelas que eu sabia que não eram exigentes.

A Natureza também não me presenteou com um talento sequer. Na infância, nem uma boa pipa - naquele tempo eu chamava este brinquedo de papagaio - conseguia fazer. Rodar pião - nunca mais vi um - só consegui de forma simples. Os meus colegas de infância faziam zunir ao rodar o pião. Tinha os que faziam o rodar na mão e na unha do polegar. Nunca joguei bem bolinha de vidro (gude). No futebol, me chamavam de "perna-de-pau".

Com o tempo, fui me acostumando com a minha aparência e com falta de jeito. Fazer o quê? Se a Natureza tinha me feito assim, não tinha como mudar. Melhor seguir vivendo e tentar descobrir algo de bom em mim. Tentei, tentei e tentei achar alguma coisa que pudesse me dar ao menos boa satisfação, que me fizesse gostar de mim e me fizesse sentir valorizado. Inútil procura.

A gente vai crescendo, a idade vai chegando e vem chegando os problemas do corpo. Há um tempo, pensei ter um problema gástrico. Conversando com o meu amigo Renato Jadon sobre o caso, ele disse que Dr. Marcos Cardoso, nosso amigo, poderia fazer uma endoscopia em mim, para checar o que eu tinha. Ele mesmo marcou o exame com amigo médico para mim.

Chegado o dia da endoscopia - Renato me levou, já que eu seria sedado e não poderia dirigir -, descobri algo que me fez o homem mais feliz do mundo desde então. Eu tinha certeza que teria algo no esôfago ou estômago, pois passava mal depois das refeições.

Mas para minha surpresa, quando Dr. Marcos inseriu o endoscópio pela minha garganta adentro e começou a examinar, ele disse que nunca tinha visto um esôfago e um estômago tão bonitos. "Paulo, você tem um estômago limpo, rosado e muito bonito. Você não tem nada de mal aqui. Só vejo um órgão bonito no monitor."

Aquelas palavras me fizeram feliz. Posso não ser bonito por fora, mas, quem já me viu por dentro, sabe que lá no fundo sou bonito. Beleza interna é muito importante. E segundo Dr. Marcos, eu a possuo. Hoje, apesar de não ser bonito por fora, não me sinto feio, pois tenho a certeza que tenho a boniteza interna.




Deus não é Fiel

Fixemos nosso olhar nas coisas deste mundo. Certifiquemos que vivemos num mundo da diversidade. Tudo que aqui se encontra não é único. Não há só um exemplar de mesa. Também não há um só homem. Cada coisa que se põe à vista é um objeto. Mas, como objeto, tal coisa pode se mostrar com formatos, tamanhos e cores diferentes. Se requisitarmos uma mesa e não a adjetivarmos, ninguém saberá, apenas pelo substantivo “mesa”, de qual mesa necessitamos.

Quando alguém indica uma pessoa apenas pelo seu nome, por exemplo, Paulo, e não nos fornece nenhuma característica, nem dados para sabermos a qual “Paulo” ele se refere, não há como sabermos quem é esse Paulo. Se quisermos ter a mesa da qual necessitamos, ao requisitá-la, devemos qualificá-la, descrevendo-a como de madeira ou de metal, pequena ou grande, alta ou baixa, comprida ou curta, quadrada, retangular ou redonda. Se quisermos saber de qual Paulo se fala, devemos obter as suas qualidades, tais como a sua nacionalidade, sua estatura, a cor da sua pele. É também necessário sabermos as suas qualidades acidentais, como Paulo careca, gordo, que usa óculos.

Tudo que aqui se encontra, encontra-se apenas neste mundo, sendo, portanto, mundano. Mundano por quê? Porque nada aqui é perfeito e nem eterno. Tudo, que é material, aqui é gerado e tudo se corrompe aqui. Não há nada que não esteja em movimento e livre de mudanças. Algo bom pode se corromper, tornando se ruim. Nada escapa ao efeito do tempo. O novo, com o tempo, passa a velho.

Aqui, repito, é o mundo da diversidade, onde há necessidade, para conhecer e reconhecer qualquer coisa, de adjetivos. Aqui podemos dizer que uma pessoa é fiel, bela, rica, bondosa, feliz. Em uma palavra, o homem é um ser que precisa ser adjetivado para ser conhecido e reconhecido. Agora avistemos Deus. Ele se encontra em todos os lugares, mas não reside apenas aqui. Ele reside no mundo Celestial e é Único. Não há mais que Um, mas apenas Ele, apesar dele ser Três. Mas Três também é Um. E quando se há apenas Um, basta apenas o Seu nome.

Aquele que conhece verdadeiramente Deus, sabe que Deus não deve ser adjetivado, pois querer qualificá-Lo, como fazemos com as coisas mundanas, é querer trazê-Lo para este mundo e fixá-Lo aqui. Não se deve adjetivar Deus, pois Ele não pertence a nenhuma categoria deste mundo, e comete-se a heresia ao dizer que Deus é rico, belo, bondoso, feliz ou fiel. Deus é Deus, o próprio nome. Portanto Deus é a própria Riqueza, a própria Beleza, a própria Bondade, a própria Felicidade e a própria Fidelidade.




O ser humano e o bem-estar


O ser humano não nasce de uma pedra nem de uma árvore nem de um peixe. Se o ser humano fosse uma pedra, seria uma substância inanimada. Se fosse uma árvore, seria um ser imóvel. Se fosse como peixe, seria independente, pois muitos peixes, como salmão, nascem sem precisar dos cuidados dos pais.

Salmão morre logo após a desova. Seus filhotes, ao nascerem, já sabem como agir na natureza. Viverão a maior parte da sua vida no mar, para depois voltarem ao rio, onde nasceram, para desovar e dar continuidade a sua espécie. Eles agem por instinto.

O ser humano, ao contrário do salmão, ao nascer é um ser frágil. Um recém-nascido humano não é capaz de sobreviver sem os cuidados dos pais. Há relatos de bebês abandonados em florestas, que foram adotados e criados por lobas. Todos conhecemos a história dos fundadores de Roma, Rômulo e Remo, os gêmeos amamentados por uma loba.

Em 1797, na região de Aveyron, na França, encontraram pela primeira vez um menino que, supostamente, havia sido abandonado numa floresta aos 4 ou 5 anos de idade. Ele perambulava pela floresta de Lacune completamente nu e fugia quando sentia presença de pessoas perto dele. Muitos acreditavam que ele tinha conseguido sobreviver sozinho na floresta.

Outra história instigante é das duas meninas da Índia, supostamente encontradas entre lobos. Quando foram resgatadas, em 1920, as chamavam apenas de meninas-lobo. À menina de um ano e meio, deram o nome de Amala. A de oito anos a chamaram de Kamala. A primeira morreu um ano após ter sido achada. A mais velha viveu até os dezessete anos. Dizem que elas nada tinham de humano e se comportavam como lobos. Comiam carne putrificada e andavam sobre os pés e as mãos. Eram incapazes de ficar de pé.

A conclusão que os estudiosos chegaram sobre o garoto de Aveyron, que foi chamado de Victor, é que ele havia nascido com problemas mentais. Concluíram também que tinha ou fugido de casa ou sido abandonado pelos pais e passou a viver isoladamente. Amala e Kamala eram duas portadoras de deficiência mental. Dizem que inventaram a história das meninas-lobo, com intuito da instituição, que cuidava delas, de sensibilizar o mundo e conseguisse doações. As três histórias não passam de mitos.

É humanamente impossível uma criança sobreviver sem os devidos cuidados, já que não tem a independência do salmão. Quanto mais cuidado uma criança receber, é mais provável que crescerá mais saudável. Quanto mais os pais se amarem, mais amor darão ao filho, que, possivelmente, se tornará um adulto feliz. Os pais felizes são aqueles mais capazes de dar uma melhor educação ao filho no seu lar. Uma pessoa bem educada é uma pessoa portadora de um espírito evoluído.

Mas não basta apenas uma educação dos pais. Há que haver uma continuidade nos cuidados das crianças e jovens. Daí, é que entra a responsabilidade do governo de uma cidade. A cidade é governada por três poderes: judiciário, legislativo e executivo. Caso um dos três poderes não exerça, por qualquer motivo, sua função bem, instala-se a desarmonia na comunidade, fazendo os membros viverem sem conforto. Um governo, sem os três poderes trabalhando em harmonia, é uma instituição fraca e adoece a sua comunidade.

A primeira coisa que os governantes, principalmente os do executivo e os do legislativo, devem saber é o fim da política. A política não deve ser um meio dos políticos, mas um fim para a cidade, pois é uma ciência que deve promover e manter um bem-estar à comunidade. Uma cidade harmonizada é uma cidade produtora de felicidade e ser feliz é o desejo de todos. Ser feliz significa ter uma boa vida. A boa vida provém da atividade intelectual em da atividade moral.




Pobreza sem fome

Ser pobre e passar fome pode ser cultural. Explico. Assim que mudamos para o bairro de Camilópolis, na cidade de Santo André, região do Grande ABC, enquanto não trabalhávamos, passamos por um período difícil. Vivíamos sem dinheiro, mas fome não experimentamos. Imagine uma família com onze bocas para alimentar.

Os okinawanos, talvez por terem passado por uma recessão nos inícios do século passado, aproveitava tudo na cozinha. Inventou várias formas de preparar um mesmo produto, seja animal ou vegetal. Desenvolveu muitos modos de conservar os alimentos. Ovos, os okinawanos fazem de dezenas maneiras, inclusive uma sopa deliciosa, que chamamos de “uburu”. A mistura cozida de ovo com toucinho defumado, ervas e “missô” (pasta de soja) torna-se um excelente acompanhante de “gohan” (arroz japonês sem sal). “Missô” também dá um caldo maravilhoso. Folhas de cenouras novas, talos de agrião, folhas de couve-flor, casca de batatinhas eram aproveitado.

Todas as sextas-feiras, minha mãe e minhas irmãs iam à feira para fazer a despesa da semana. Mesmo levando pouco dinheiro, naquela época, nos meados da década de 60, voltavam com as sacolas lotadas. A minha mãe encontrava produtos que os brasileiros não apreciavam, e os compravam por preços baixos. Ela também ganhava muitas coisas dos feirantes japoneses.

Na banca de frangos, recebia miúdos (coração, fígado e moela), pescoços e pés. Na de verdura, talos de agrião, folhas tenras de cenouras. Na de carne, miolo de boi e bucho. Na de peixe, cabeças, com as quais fazia-se uma saborosa sopa. Ainda na banca de peixe, sinta inveja, caro leitor- que delicia! - minha mãe ganhava ovas de tainha. Hoje tais ovas chegam a custar mais d cem reais o quilo. Também ganhava barbatanas de cação, que fica uma delicia na sopa e no ensopado.

Minha mãe e minha avó cozinhavam bem. Ah, que saudade do feijão da minha mãe. Meus amigos e parentes que experimentaram o feijão dela, dizem que nunca mais comeram um feijão tão gostoso quanto o da minha mãe. A minha falecida esposa, Nilsen, quando tinha um feijão fresco, ia comer na minha mãe e trazia um pouco para a nossa casa.

Sinto muita falta de um risoto que minha avó fazia com tudo que havia na cozinha. Ia carne de frango, porco, legumes e várias verduras. Era delicioso um prato típico de Okinawa feito com nabo seco pela minha mãe. Mas de todos os pratos que minha mãe e minha avó preparavam, acredite leitor, é o refogado de “naberá” (bucha). Sim, é um tipo de bucha de Okinawa, comestível quando nova, antes de virar um objeto de esfregar no banho. “Naberá” dava no quintal dos fundos das casas dos okinawanos. Quando o pé carregava com o tal fruto, era uma festa. Tá vendo, como não podíamos passar fome mesmo não tendo dinheiro?




Carta de um Pai à Filha Órfã

Andressa,

Papai e mamãe nem casados eram e já haviam decidido que teriam apenas dois filhos, caso os dois primeiros fossem um menino e uma menina. A primeira a vir foi a Paula.

Quando a mamãe ficou sabendo, através da ultrassonografia, que o segundo, que depois receberia o nome de Alessandro, era um menino, combinou com o médico que faria cesariana e se submeteria à cirurgia para evitar mais filhos.

Mas, um dia antes da cesariana marcada, a bolsa se rompeu. Assim que a mamãe chegou ao Hospital, nem deu tempo do médico preparar a cirurgia, Alessandro nasceu de um parto natural, de modo que não foi possível fechar as trompas.

Puxa, sua mamãe e seu papai já estavam felizes com um casal, e não esperavam mais ter filhos. Mas, três anos depois do Alessandro ter nascido, a mamãe engravidou, para a surpresa dela e de seu papai. Foi inesperado, pois não tinham planejado ter outro filho. Daquela vez era você que chegaria, e de surpresa. Eles não tinham planejado. Mas Deus providencia.

Um ano depois que você veio a este mundo, a mamãe foi vítima de uma doença rara. Ela foi a segunda pessoa constatada com essa doença no mundo e a primeira no Brasil. Era uma doença desconhecida. A meninge da mamãe foi infectada por fungos de nome esquisito: "criptococus gatti". Não estou certo se é assim que se escreve o nome dos invasores.

A doença da mamãe não tinha cura naquela época, mas por você ela conseguiu sobreviver por três longos e felizes anos, pois você foi o motivo para ela vencer a grave doença por esse período. Três anos parece pouco, mas aquela doença poderia ter matado a mamãe em semanas. Mesmo doente e debilitada, a mamãe, quando não estava internada no hospital, irradiava energia e coragem ao ter você nos braços dela. Eram os momentos nos quais ela se apresentava como que não tivesse doença alguma. Ela era feliz por ter tido você. E você sorria e fazia a mamãe sorrir.

Quando a mamãe ficava longos períodos no hospital, seu papai levava você, a Paula e o Alessandro, aos sábado, domingos e feriados para verem a mamãe. O hospital não deixava crianças subirem ao quarto. Então, papai combinava com a mamãe a hora que vocês estariam lá embaixo. A mamãe aparecia na janela e você logo acenava com a mão e dizia, "oi, mamãe!", e a mamãe acenava para vocês sorrindo. Papai acha que naquelas horas a mamãe esquecia do seu sofrimento. Depois, para não cansar a mamãe, você acenava de volta e dizia, "tchau, mamãe". Foram várias visitas dessa forma.

Mas um dia a doença acabou levando a mamãe. O mundo desabou sob os pés do papai. A Paula e Alessandro emudeceram e entristeceram. Mas você teve um papel importante na vida deles. Você ainda tinha só três anos e sabia que não veria a mamãe jamais. Mas não havia tristeza no seu olhar, já que vivia dizendo que ela estava ao lado de um santinho lá em cima e apontava para o céu, lembra? Dizia que ela estava bem. Foram tantas as vezes que o papai viu você acenar para o céu e dizer, "oi, mamãe!" e depois de um tempo, "tchau, mamãe!"

Um dia, o papai estava muito triste e só. A vida parecia ter perdido a graça e o sentido. Você, junto com a Paula e Alessandro, tinha saído com uma tia. Quando vocês retornaram para casa, você correu para o papai e deu um abraço muito forte. Nada disse. Naquele instante, o papai juntou as poucas forças que restavam e disse para ele mesmo, "você tem que viver para que os seus filhos possam viver". A tristeza pela morte da mamãe nunca foi embora, mas você deu um bom motivo para o papai não levar uma queda.

Muita gente diz para o papai, "puxa você foi pai e mãe para os seus filhos". Mas ele diz, "não, eles não tiveram uma mãe. Pude ter sido um pai dobrado, mas nunca serei capaz de substituir a mãe deles que foi uma pessoa muito especial". Sim, a mamãe era humilde, educada e dedicada a vocês. Sabe, Andressa, se você se comporta bem, não fala palavrão, não anda em más companhias e evita as coisas erradas, é porque você tem muito da mamãe, que era devota de São Francisco de Assis.

E tenha certeza, quando você falava que mamãe estava bem e estava ao lado de um santinho, quando ela morreu, você falava a verdade. E aquele "santinho" a quem você se referia, hoje você bem sabe quem ele é: o próprio Jesus Cristo.

Sabe, na maioria do tempo que você está em casa, seu papai vê você com olhar tristonho e compenetrado. Foram tantas as vezes que o papai viu você com olhos fixos numa foto da mamãe. Para o papai, parecia que você se comunicava com a mamãe.

Você tem um motivo grande para ser uma pessoa triste, pois não tem aquele tesouro que suas amigas têm. Só você sabe a falta que faz uma mãe, principalmente aquela que seu pai sabia quem e como ela era. Mas você tem também um grande motivo para se alegrar e se sentir contente, pois você nasceu para preencher e alegrar um vazio que veria depois. Você deu uma nova vida ao seu pai e seus irmãos. Para eles, você é uma "graça divina", uma "benção de Deus".

"E que Deus sempre ilumine teu caminho e que te faça iluminada."




Conversa de bar

Algum tempo atrás, aliás, há uns trinta anos, quase apanho em um bar. Falava com um conhecido de balcão sobre várias coisas. Em um determinado momento, não me lembro por quais razões, ele emitiu a sua opinião:

- A verdade não existe.

O meu mal foi a pergunta que fiz a ele:

- Pode me dizer se a sua inferência é uma verdade?

- Sim, é.

- Então, você disse a verdade?

- Sim.

-Se disse a verdade , a verdade existe.

Ele insistiu:

- Não, a verdade não existe.

-Então, você mente quando diz que a verdade não existe?

- Não minto, não.

- Então fala a verdade ?

- Mas a verdade não existe.

-Quando você diz que a verdade não existe , você fala a verdade ou mente ?

- Falo a verdade.

- Viu? A verdade existe .

- Não, a verdade não existe.

- O que acaba de dizer, é uma verdade ou uma mentira?

- Não converso mais com você. Você é muito burro pro meu gosto. É ignorante e difícil de entender a gente. ..

- Eu sou burro?

- Muito burro.

- Verdade que sou burro?

- É verdade .

- Então a verdade existe.

A partir daqui, passou a me xingar esbravejar e continuou a falar até soltar cobras e lagartos pela boca. Tive que pagar a conta e deixar o local.


Paulo Moriassu Hijo é formado em filosofia pela USP