Paulo Hijo


Biografia:

É escritor, cronista, formado em filosofia pela USP. Na infância se comunicava em três idiomas: português, japonês e o dialeto okinawano, por ser filho de imigrantes okinawanos. Sua vocação é a Filosofia, pelo interesse permanente no estudo dos mistérios da fé e das letras. Além do tempo dedicado às aulas, o autor vem desenvolvendo projetos de livros paradidáticos na área da Filosofia.


Obras:

Enquanto a chuva não passa
Cartas de um nihonjin uchinanchu do Brasil


Textos de Paulo Moriassu Hijo:

Deus não é Fiel


Fixemos nosso olhar nas coisas deste mundo. Certifiquemos que vivemos num mundo da diversidade. Tudo que aqui se encontra não é único. Não há só um exemplar de mesa. Também não há um só homem. Cada coisa que se põe à vista é um objeto. Mas, como objeto, tal coisa pode se mostrar com formatos, tamanhos e cores diferentes. Se requisitarmos uma mesa e não a adjetivarmos, ninguém saberá, apenas pelo substantivo “mesa”, de qual mesa necessitamos.

Quando alguém indica uma pessoa apenas pelo seu nome, por exemplo, Paulo, e não nos fornece nenhuma característica, nem dados para sabermos a qual “Paulo” ele se refere, não há como sabermos quem é esse Paulo. Se quisermos ter a mesa da qual necessitamos, ao requisitá-la, devemos qualificá-la, descrevendo-a como de madeira ou de metal, pequena ou grande, alta ou baixa, comprida ou curta, quadrada, retangular ou redonda. Se quisermos saber de qual Paulo se fala, devemos obter as suas qualidades, tais como a sua nacionalidade, sua estatura, a cor da sua pele. É também necessário sabermos as suas qualidades acidentais, como Paulo careca, gordo, que usa óculos.

Tudo que aqui se encontra, encontra-se apenas neste mundo, sendo, portanto, mundano. Mundano por quê? Porque nada aqui é perfeito e nem eterno. Tudo, que é material, aqui é gerado e tudo se corrompe aqui. Não há nada que não esteja em movimento e livre de mudanças. Algo bom pode se corromper, tornando se ruim. Nada escapa ao efeito do tempo. O novo, com o tempo, passa a velho.

Aqui, repito, é o mundo da diversidade, onde há necessidade, para conhecer e reconhecer qualquer coisa, de adjetivos. Aqui podemos dizer que uma pessoa é fiel, bela, rica, bondosa, feliz. Em uma palavra, o homem é um ser que precisa ser adjetivado para ser conhecido e reconhecido. Agora avistemos Deus. Ele se encontra em todos os lugares, mas não reside apenas aqui. Ele reside no mundo Celestial e é Único. Não há mais que Um, mas apenas Ele, apesar dele ser Três. Mas Três também é Um. E quando se há apenas Um, basta apenas o Seu nome.

Aquele que conhece verdadeiramente Deus, sabe que Deus não deve ser adjetivado, pois querer qualificá-Lo, como fazemos com as coisas mundanas, é querer trazê-Lo para este mundo e fixá-Lo aqui. Não se deve adjetivar Deus, pois Ele não pertence a nenhuma categoria deste mundo, e comete-se a heresia ao dizer que Deus é rico, belo, bondoso, feliz ou fiel. Deus é Deus, o próprio nome. Portanto Deus é a própria Riqueza, a própria Beleza, a própria Bondade, a própria Felicidade e a própria Fidelidade.



O ser humano e o bem-estar


O ser humano não nasce de uma pedra nem de uma árvore nem de um peixe. Se o ser humano fosse uma pedra, seria uma substância inanimada. Se fosse uma árvore, seria um ser imóvel. Se fosse como peixe, seria independente, pois muitos peixes, como salmão, nascem sem precisar dos cuidados dos pais.

Salmão morre logo após a desova. Seus filhotes, ao nascerem, já sabem como agir na natureza. Viverão a maior parte da sua vida no mar, para depois voltarem ao rio, onde nasceram, para desovar e dar continuidade a sua espécie. Eles agem por instinto.

O ser humano, ao contrário do salmão, ao nascer é um ser frágil. Um recém-nascido humano não é capaz de sobreviver sem os cuidados dos pais. Há relatos de bebês abandonados em florestas, que foram adotados e criados por lobas. Todos conhecemos a história dos fundadores de Roma, Rômulo e Remo, os gêmeos amamentados por uma loba.

Em 1797, na região de Aveyron, na França, encontraram pela primeira vez um menino que, supostamente, havia sido abandonado numa floresta aos 4 ou 5 anos de idade. Ele perambulava pela floresta de Lacune completamente nu e fugia quando sentia presença de pessoas perto dele. Muitos acreditavam que ele tinha conseguido sobreviver sozinho na floresta.

Outra história instigante é das duas meninas da Índia, supostamente encontradas entre lobos. Quando foram resgatadas, em 1920, as chamavam apenas de meninas-lobo. À menina de um ano e meio, deram o nome de Amala. A de oito anos a chamaram de Kamala. A primeira morreu um ano após ter sido achada. A mais velha viveu até os dezessete anos. Dizem que elas nada tinham de humano e se comportavam como lobos. Comiam carne putrificada e andavam sobre os pés e as mãos. Eram incapazes de ficar de pé.

A conclusão que os estudiosos chegaram sobre o garoto de Aveyron, que foi chamado de Victor, é que ele havia nascido com problemas mentais. Concluíram também que tinha ou fugido de casa ou sido abandonado pelos pais e passou a viver isoladamente. Amala e Kamala eram duas portadoras de deficiência mental. Dizem que inventaram a história das meninas-lobo, com intuito da instituição, que cuidava delas, de sensibilizar o mundo e conseguisse doações. As três histórias não passam de mitos.

É humanamente impossível uma criança sobreviver sem os devidos cuidados, já que não tem a independência do salmão. Quanto mais cuidado uma criança receber, é mais provável que crescerá mais saudável. Quanto mais os pais se amarem, mais amor darão ao filho, que, possivelmente, se tornará um adulto feliz. Os pais felizes são aqueles mais capazes de dar uma melhor educação ao filho no seu lar. Uma pessoa bem educada é uma pessoa portadora de um espírito evoluído.

Mas não basta apenas uma educação dos pais. Há que haver uma continuidade nos cuidados das crianças e jovens. Daí, é que entra a responsabilidade do governo de uma cidade. A cidade é governada por três poderes: judiciário, legislativo e executivo. Caso um dos três poderes não exerça, por qualquer motivo, sua função bem, instala-se a desarmonia na comunidade, fazendo os membros viverem sem conforto. Um governo, sem os três poderes trabalhando em harmonia, é uma instituição fraca e adoece a sua comunidade.

A primeira coisa que os governantes, principalmente os do executivo e os do legislativo, devem saber é o fim da política. A política não deve ser um meio dos políticos, mas um fim para a cidade, pois é uma ciência que deve promover e manter um bem-estar à comunidade. Uma cidade harmonizada é uma cidade produtora de felicidade e ser feliz é o desejo de todos. Ser feliz significa ter uma boa vida. A boa vida provém da atividade intelectual em da atividade moral.




Pobreza sem fome

Ser pobre e passar fome pode ser cultural. Explico. Assim que mudamos para o bairro de Camilópolis, na cidade de Santo André, região do Grande ABC, enquanto não trabalhávamos, passamos por um período difícil. Vivíamos sem dinheiro, mas fome não experimentamos. Imagine uma família com onze bocas para alimentar.

Os okinawanos, talvez por terem passado por uma recessão nos inícios do século passado, aproveitava tudo na cozinha. Inventou várias formas de preparar um mesmo produto, seja animal ou vegetal. Desenvolveu muitos modos de conservar os alimentos. Ovos, os okinawanos fazem de dezenas maneiras, inclusive uma sopa deliciosa, que chamamos de “uburu”. A mistura cozida de ovo com toucinho defumado, ervas e “missô” (pasta de soja) torna-se um excelente acompanhante de “gohan” (arroz japonês sem sal). “Missô” também dá um caldo maravilhoso. Folhas de cenouras novas, talos de agrião, folhas de couve-flor, casca de batatinhas eram aproveitado.

Todas as sextas-feiras, minha mãe e minhas irmãs iam à feira para fazer a despesa da semana. Mesmo levando pouco dinheiro, naquela época, nos meados da década de 60, voltavam com as sacolas lotadas. A minha mãe encontrava produtos que os brasileiros não apreciavam, e os compravam por preços baixos. Ela também ganhava muitas coisas dos feirantes japoneses.

Na banca de frangos, recebia miúdos (coração, fígado e moela), pescoços e pés. Na de verdura, talos de agrião, folhas tenras de cenouras. Na de carne, miolo de boi e bucho. Na de peixe, cabeças, com as quais fazia-se uma saborosa sopa. Ainda na banca de peixe, sinta inveja, caro leitor- que delicia! - minha mãe ganhava ovas de tainha. Hoje tais ovas chegam a custar mais d cem reais o quilo. Também ganhava barbatanas de cação, que fica uma delicia na sopa e no ensopado.

Minha mãe e minha avó cozinhavam bem. Ah, que saudade do feijão da minha mãe. Meus amigos e parentes que experimentaram o feijão dela, dizem que nunca mais comeram um feijão tão gostoso quanto o da minha mãe. A minha falecida esposa, Nilsen, quando tinha um feijão fresco, ia comer na minha mãe e trazia um pouco para a nossa casa.

Sinto muita falta de um risoto que minha avó fazia com tudo que havia na cozinha. Ia carne de frango, porco, legumes e várias verduras. Era delicioso um prato típico de Okinawa feito com nabo seco pela minha mãe. Mas de todos os pratos que minha mãe e minha avó preparavam, acredite leitor, é o refogado de “naberá” (bucha). Sim, é um tipo de bucha de Okinawa, comestível quando nova, antes de virar um objeto de esfregar no banho. “Naberá” dava no quintal dos fundos das casas dos okinawanos. Quando o pé carregava com o tal fruto, era uma festa. Tá vendo, como não podíamos passar fome mesmo não tendo dinheiro?




Carta de um Pai à Filha Órfã
Andressa,

Papai e mamãe nem casados eram e já haviam decidido que teriam apenas dois filhos, caso os dois primeiros fossem um menino e uma menina. A primeira a vir foi a Paula.

Quando a mamãe ficou sabendo, através da ultrassonografia, que o segundo, que depois receberia o nome de Alessandro, era um menino, combinou com o médico que faria cesariana e se submeteria à cirurgia para evitar mais filhos.

Mas, um dia antes da cesariana marcada, a bolsa se rompeu. Assim que a mamãe chegou ao Hospital, nem deu tempo do médico preparar a cirurgia, Alessandro nasceu de um parto natural, de modo que não foi possível fechar as trompas.

Puxa, sua mamãe e seu papai já estavam felizes com um casal, e não esperavam mais ter filhos. Mas, três anos depois do Alessandro ter nascido, a mamãe engravidou, para a surpresa dela e de seu papai. Foi inesperado, pois não tinham planejado ter outro filho. Daquela vez era você que chegaria, e de surpresa. Eles não tinham planejado. Mas Deus providencia.

Um ano depois que você veio a este mundo, a mamãe foi vítima de uma doença rara. Ela foi a segunda pessoa constatada com essa doença no mundo e a primeira no Brasil. Era uma doença desconhecida. A meninge da mamãe foi infectada por fungos de nome esquisito: "criptococus gatti". Não estou certo se é assim que se escreve o nome dos invasores.

A doença da mamãe não tinha cura naquela época, mas por você ela conseguiu sobreviver por três longos e felizes anos, pois você foi o motivo para ela vencer a grave doença por esse período. Três anos parece pouco, mas aquela doença poderia ter matado a mamãe em semanas. Mesmo doente e debilitada, a mamãe, quando não estava internada no hospital, irradiava energia e coragem ao ter você nos braços dela. Eram os momentos nos quais ela se apresentava como que não tivesse doença alguma. Ela era feliz por ter tido você. E você sorria e fazia a mamãe sorrir.

Quando a mamãe ficava longos períodos no hospital, seu papai levava você, a Paula e o Alessandro, aos sábado, domingos e feriados para verem a mamãe. O hospital não deixava crianças subirem ao quarto. Então, papai combinava com a mamãe a hora que vocês estariam lá embaixo. A mamãe aparecia na janela e você logo acenava com a mão e dizia, "oi, mamãe!", e a mamãe acenava para vocês sorrindo. Papai acha que naquelas horas a mamãe esquecia do seu sofrimento. Depois, para não cansar a mamãe, você acenava de volta e dizia, "tchau, mamãe". Foram várias visitas dessa forma.

Mas um dia a doença acabou levando a mamãe. O mundo desabou sob os pés do papai. A Paula e Alessandro emudeceram e entristeceram. Mas você teve um papel importante na vida deles. Você ainda tinha só três anos e sabia que não veria a mamãe jamais. Mas não havia tristeza no seu olhar, já que vivia dizendo que ela estava ao lado de um santinho lá em cima e apontava para o céu, lembra? Dizia que ela estava bem. Foram tantas as vezes que o papai viu você acenar para o céu e dizer, "oi, mamãe!" e depois de um tempo, "tchau, mamãe!"

Um dia, o papai estava muito triste e só. A vida parecia ter perdido a graça e o sentido. Você, junto com a Paula e Alessandro, tinha saído com uma tia. Quando vocês retornaram para casa, você correu para o papai e deu um abraço muito forte. Nada disse. Naquele instante, o papai juntou as poucas forças que restavam e disse para ele mesmo, "você tem que viver para que os seus filhos possam viver". A tristeza pela morte da mamãe nunca foi embora, mas você deu um bom motivo para o papai não levar uma queda.

Muita gente diz para o papai, "puxa você foi pai e mãe para os seus filhos". Mas ele diz, "não, eles não tiveram uma mãe. Pude ter sido um pai dobrado, mas nunca serei capaz de substituir a mãe deles que foi uma pessoa muito especial". Sim, a mamãe era humilde, educada e dedicada a vocês. Sabe, Andressa, se você se comporta bem, não fala palavrão, não anda em más companhias e evita as coisas erradas, é porque você tem muito da mamãe, que era devota de São Francisco de Assis.

E tenha certeza, quando você falava que mamãe estava bem e estava ao lado de um santinho, quando ela morreu, você falava a verdade. E aquele "santinho" a quem você se referia, hoje você bem sabe quem ele é: o próprio Jesus Cristo.

Sabe, na maioria do tempo que você está em casa, seu papai vê você com olhar tristonho e compenetrado. Foram tantas as vezes que o papai viu você com olhos fixos numa foto da mamãe. Para o papai, parecia que você se comunicava com a mamãe.

Você tem um motivo grande para ser uma pessoa triste, pois não tem aquele tesouro que suas amigas têm. Só você sabe a falta que faz uma mãe, principalmente aquela que seu pai sabia quem e como ela era. Mas você tem também um grande motivo para se alegrar e se sentir contente, pois você nasceu para preencher e alegrar um vazio que veria depois. Você deu uma nova vida ao seu pai e seus irmãos. Para eles, você é uma "graça divina", uma "benção de Deus".

"E Que Deus sempre ilumine teu caminho e que te faça iluminada."



Paulo Moriassu Hijo é formado em filosofia pela USP