Alexandre Takara


Biografia

É formado em Ciências Sociais pela Escola de Sociologia Política de São Paulo, ingressou no magistério secundário e posteriormente no ensino universitário. Lecionou antropologia Cultural na UMESP- Universidade Metodista de São Paulo, foi Secretário da Cultura de Santo André.



Textos:




MUSEU DO TRABALHO E DO TRABALHADOR



Excelente iniciativa, vista ideologicamente pelo prefeito Orlando Morando, de São Bernardo do Campo, gerou polêmica e obriga os animadores culturais a assumir uma posição. Ele pretende dar outra destinação ao prédio porque visa a preservar o presidente Lula. O atual Ministro da Cultura, Roberto Freire, do PPS, declara não ser possível essa mudança posto que deve ser cumprido o determinado no projeto – o Museu. A Prefeitura deixará de colaborar na instalação.

Estabelecido o impasse, elevam-se as vozes de cidadãos sãobernardenses, como de Nevino Antonio Rocco e do memorialista Ademir Medici. O equívoco de Orlando Morando é de associar o Museu ao movimento sindical e a um partido político. O Museu de Trabalho e do Trabalhador transcende essa concepção para ganhar dimensões simbólicas porquanto o homem vive em três dimensões - no mundo do trabalho, no mundo das práticas sociais (a política) e no mundo das representações simbólicas. O senhor Prefeito concebe o Museu apenas nas duas primeiras. E o mundo das representações simbólicas? A abordagem do Sr. Prefeito reduz a memória e a história do trabalho porque exclui o trabalho do escravo no ABC, a economia rural em vigor durante séculos, a mão-de-obra de imigrantes italianos, os batateiros, os marceneiros e um sem número de outras atividades econômicas.

O Museu não abrigaria apenas a história do trabalhador, mas também a história do trabalho, envolvendo inclusive a história de muitos operários que se tornaram empresários,como Giacinto Tognato,operário da Tecelagem Ypiranguinha,de Santo André, que vai instalar a Tecelagem Tognato, em São Bernardo do Campo, e desenvolvida, depois, pelos filhos. Essa empresa vai abrigar milhares de operários. João Basso trabalhou numa indústria em Jundiaí para aprender o ofício de marceneiro e, depois, instalar sua empresa em São Bernardo do Campo e gerar empregos. O que aconteceu, em São Bernardo do Campo, aconteceu também em Santo André e em São Caetano do Sul. O empresário é também um trabalhador.

A história do trabalho e do trabalhador vai ganhar novas dimensões com a política de intervenção do Estado na economia durante o Estado Novo (1937/1945), conduzido pelo presidente Getúlio Vargas e mais ainda durante a presidência de Juscelino Kubitschek (1956/1961) com a aplicação da teoria keynesiana, de intervenção do Estado na economia. J.K. incentivou a indústria automobilística que foi instalada ao longo da via Anchieta, em São Bernardo do Campo, e de autopeças nos municípios da Grande São Paulo. O mundo do trabalho e do trabalhador ganha importância decisiva, de modo a enfraquecer a ditadura militar (1964/1985). Fortaleceu-se o movimento sindical e fundou-se o PT, mas isso não justifica o abandono do projeto do Museu do Trabalho e do Trabalhador.


(Publicado no Diário do Grande ABC em 25 de junho de 2017)